A frase é de Eugene Peterson e refere-se a uma das mais contundentes lições que o rei Davi teria aprendido durante suas peregrinações no deserto. O serviço não era nobre: oferecia proteção a pastores com seus rebanhos. Não era especializado: contava com a mão de obra de mercenários e outros fugitivos, os quais encontraram em Davi a referência e a motivação para fazer a vida valer a pena.

Serviço é escola. Escola de liderança. Escola de reis. Seus alunos aprendem, na prática, que nenhuma autoridade é sem propósitos; nenhum poder é sem razão. As pessoas não se nos submetem por causa da abundância de qualidades que temos, mas em função do modo como estas qualidades se tornam úteis na construção de uma vida comum melhor e mais feliz. Estamos a seu serviço.

Mas servir não está entre nossos verbos preferidos. Sentimo-nos mais à vontade com o verbo reinar. É entusiasmante, assim como os verbos vencer, conquistar, triunfar, pisar (a cabeça do diabo). Não se trata de questão semântica, mas romântica. Fantasiamos tudo que nos diz respeito. Supervalorizamos nossa importância e alimentamos nossos sonhos de onipotência. Somos orgulhosos.

O orgulho é irmão gêmeo do egocentrismo. Faz com que o indivíduo assuma o mundo e as pessoas à sua volta como se orbitassem ao seu redor. Estão ali por sua causa e à sua disposição. Devem servir aos seus próprios propósitos ou intenções. Devem ser úteis para alguma finalidade que lhe interesse. Por isso, o contrário não pode ser verdadeiro. Servir significa, para o orgulhoso, sair do centro e, consequentemente, perder-se de si mesmo. É como abrir mão de todas as aspirações por reinar.

 Reinar não significa centralizar-se, mas expandir-se em amor e utilidade para o próximo. Reina não quem se coloca no centro, mas quem se tornou fundamental. Davi, que já havia sido ungido rei, precisava descobrir, no deserto, o privilégio de ser útil. Ninguém pode ser rei se não aprendeu a ser útil. Ninguém pode ter súditos se nunca foi servo. Reconhecimento e devoção devem acompanhar uma vida de serviços em prol do bem comum. Líderes devem dar o exemplo.

Jesus Cristo encarnou, como ninguém, a figura do servo. Nas suas palavras: “Quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo, tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20:27-28). Como servo foi coroado. Para citar Moltmann: “A realeza do Deus uno e trino não se espelha nas coroas dos reis ou no triunfo dos vencedores, mas sim na face do crucificado e na face dos oprimidos, dos quais ele se tornou irmão.” Serviu e reinou.

Davi tornou-se rei no deserto. Como rei deixou o deserto e assumiu o palácio. A mudança do ambiente não alterou as características de sua identidade. Era servo e já reinava. Descobriu que o deserto não fez dele um rei – isso foi obra de Deus. O deserto, como escola de reis, ensinou-o a servir para verdadeiramente reinar. Reinaria por ser uma bênção e não como quem usurpa o trono. Reinaria no servir. Servir já é reinar.

 

Deixe seu comentário

WordPress Image Lightbox Plugin