“A mais difícil das ciências é conhecer a si mesmo” (Basílio)

Moisés foi criado no palácio egípcio até os quarenta anos de idade. Fugiu para o deserto e ali viveu por outros quarenta anos. Tirou o povo do Egito e liderou-o por mais quarenta anos. Morreu. Seu corpo foi ocultado pelo próprio Deus.

No chamado de Moisés, aos oitenta anos, Deus apareceu-lhe numa sarça em chamas. A sarça ardia, mas não se consumia. Moisés percebeu o fenômeno e temeu aproximar-se. Deus lhe falou e mandou que tirasse as sandálias: o chão que pisava era terra santa.

Deus apresentou-se como Deus dos antepassados e comissionou Moisés para tirar os hebreus da escravidão no Egito. A reação de Moisés foi reticente, bem aos moldes da reatividade profética ante a complexidade do chamado divino: “não sei falar direito” (Isaías disse: “ai de mim que vou perecendo”; Jeremias, “não passo de uma criança”; Gideão, “sou o menor dentre o meu povo”; e Davi, “quem sou eu?”). Moisés sabia que não era apto para tal tarefa. Era idoso, frágil e, para piorar, um fugitivo. Como voltar e assumir tão profundo desafio?

Deus não o contradisse, mas revelou: “Eu estarei com você”. Não se trata de um “não pense assim de você mesmo” ou, ainda, de um “acredite mais em você”; trata-se de um “não deixarei você sozinho e nem permitirei que dependa de suas próprias forças”. O Deus que chama é o mesmo que capacita e acompanha, orienta e abençoa, fortalece e dá a vitória.

O desafio da liderança cristã passa por um processo semelhante de autoconhecimento. A consciência de inaptidão é fundamental para o serviço no reino de Deus. A sarça, como mistério e revelação, advertência e milagre, coloca o comissionado frente a frente com o brilho da majestade daquele que chama. Quem pode servi-lo? Quem pode sustentar-se em sua presença? Moisés e os profetas, ao verem a glória do Senhor, viam também sua própria miséria, temendo assumir as implicações da convocação celestial.

O líder cristão precisa saber que sua força e recursos nada são. Mas não deve recuar: Deus promete seguir com ele. Não deve se enganar: sem o auxílio da mão divina não poderá, jamais, cumprir sua missão. Nas palavras de David Livingstone: “sem Cristo, nem mais um passo; com Cristo, a qualquer lugar”. Humildade e submissão são atitudes imprescindíveis.

Mas é importante lembrar: humildade é diferente de modéstia. C. S. Lewis advertiu: “a verdadeira humildade dispensa a modéstia”. Na humildade, o sucesso de toda e qualquer realização é celebrada e tributada a Deus em sua fidelidade e amor. Na modéstia, o sucesso é negado, como se não tivesse acontecido ou não passasse de um golpe de sorte. No orgulho, o sucesso é todo meu! Moisés, na seqüência de sua experiência vocacional, oscilou entre modéstia e orgulho, provocando a ira de Deus — Ele resista ao soberbo, mas habita com o humilde.

Moisés, na sarça, foi chamado, sobretudo, a olhar para si mesmo. O líder que não conhece a si mesmo não pode conhecer seus limites e possibilidades. Também não pode conhecer o outro em suas necessidades e particularidades. Como escreveu C. G. Jung: “Devemos entender a nós mesmos, se quisermos realmente nos entender com o outro”. E não há olhar para Deus que não se desdobre em um olhar para si mesmo com humildade e temor. Por isso, a oração de Agostinho: “Permita-me conhecer a ti, ó Deus, permita-me conhecer a mim, e isto é tudo”.

 

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