O evangelho de Marcos talvez seja o que mais se interessa pela liderança de Jesus. A prova desse interesse encontra-se no modo como desmascara a falência das lideranças política e religiosa de sua época. Herodes e os fariseus têm um fermento que apodrece toda a massa. Contra eles, denunciando-os, Jesus multiplicou os pães. Duas vezes.

Antes, Jesus enviou seus discípulos, dois em dois, a pregar pelas cidades (6:6-13). Deveriam ser lideranças alternativas para um povo sofrido. Enquanto os discípulos viajavam, Herodes assassinava um profeta de Deus em nome do desejo de ocultar suas mazelas (6:14-29). É o pano-de-fundo da primeira multiplicação.

Moisés e sua liderança foram retomados no primeiro partir dos pães. Jesus, nos moldes do que propôs Jetro a seu genro, dividiu as multidões em pequenos grupos sobre a relva (6:39). Deu-lhes pão do céu, pois foi Deus quem o deu, e a beber de si mesmo, a Rocha, pois ensinou-lhes sobre a vontade do Pai. Ao final, saiu para uma caminhada sobre as águas (6:45-56). Se Moisés precisou que o Mar se abrisse, Jesus andou sobre as águas: eis aqui quem é maior que Moisés!

Indiferentes a tal proeza, os fariseus e escribas questionaram o Mestre sobre a tradição religiosa (7:5). Acusaram-no, e aos novos líderes que formava, de não cumprir as obrigações cerimoniais. Jesus os confrontou com palavras e milagres. Curou enfermos fora das fronteiras e multiplicou novamente os pães (8:1-10). Não foi o suficiente para os fariseus: pediram-lhe algum sinal do céu, algo para legitimar sua autoridade (8:11).

Acontece que os discípulos também não se mostraram compreensivos quanto ao que o Mestre desejava ensinar. Primeiro, questionaram novamente o interesse de Jesus quanto a alimentar a multidão. Não tinham dinheiro. Depois, alertados sobre o fermento dos fariseus e de Herodes, supuseram que os advertia por não terem guardado um pouco de pão. Jesus lembrou-lhes das duas multiplicações e perguntou-lhes: “ainda não entendem?” (8:21).

O que há para entender? Sobretudo, que a falência da autoridade política se deve ao afastamento de Deus, enquanto a falência da autoridade religiosa se deve ao afastamento das pessoas. E o contrário, normalmente, também é verdadeiro. Por isso, ambas têm a mesma marca: hipocrisia. Fingem ser o que, há muito, já não são. É o que acontece quando o poder se desvincula da autoridade e a devoção se divorcia do amor.

As multiplicações são a chave para uma liderança eficaz, porque retomam as dimensões do milagre e da solidariedade. Confiam em Deus diante da escassez de recursos, ao mesmo tempo em que confiam na força da compaixão mesmo quando há escassez de recursos. E ainda quando estes se tornam abundantes, ilustrados nas figuras dos cestos cheios, desafiam a não perdermos a simplicidade da confiança ou o cuidado da fidelidade. No fundo, as multidões permanecem sempre as mesmas: ovelhas que não têm quem as lidere; ovelhas que não têm pastor.

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