Jesus ordenou aos seus discípulos que perdoassem as ofensas de um irmão sete vezes no dia. Quem é que consegue ofender outra pessoa por sete vezes? Num único dia? É um absurdo. Assim como o perdão, que deve ser praticado nos limites do absurdo. Trata-se de questão de fé. Por isso, a reação dos discípulos: “aumenta-nos a fé” (Lucas 17:3-5).

Jesus respondeu aos seus discípulos que, se tivessem fé como um grão de mostarda, mudariam árvores do lugar. Também contou-lhes uma parábola sobre um senhor que não poupava seu escravo do trabalho, ainda que estivesse cansado ou já tivesse feito muito. Mostrou-lhes, assim, que o perdão depende menos de fé que de obediência. Com fé, na verdade, não apenas perdoariam um irmão, mas realizariam o extraordinário. Por isso, o arremate da história: “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (6-10).

Obediência é juízo e não produz nada mais que servos inúteis. A desobediência não só é inútil como não identifica servo algum. A fé, todavia, convoca para uma dimensão da espiritualidade que já não consiste em cumprimento de obrigações, mas em entrega integral e dedicação permanente. O servo útil não obedece, apenas; ele cria, inova, toma a iniciativa e preocupa-se com sinceridade em agradar o coração de seu Senhor.

Servos úteis no reino de Deus serão, sempre, sonhadores. Alimentarão em seus corações projetos e idéias que, no entendimento deles, contribuirão com a glória de Deus e o avanço de seu reino. Pensarão de modo grande, pois crêem num Deus infinitamente grande. Por isso, viverão acima da mediocridade e alcançarão, certamente, incríveis resultados. Como escreveu Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Servos úteis sabem disso.

Servos úteis no reino de Deus serão, sempre, pessoas raras. Gente que já aprendeu que na vida vale mais o trabalho feito com raridade que o trabalho considerado necessário. Eles fazem o necessário, mas até isso fazem de forma rara. São criativos, caprichosos e têm sempre um sorriso nos lábios. Obedecem sem carranca ou melancolia. Abençoarão muitos durante sua existência mortal, como sugere o ditado índio-americano citado por James Hunter: “Quando você nasceu, você chorou e o mundo se regozijou. Viva sua vida de tal maneira que, quando você morrer, o mundo chore e você se regozije”.

Servos úteis no reino de Deus serão, sempre, filhos íntimos do Pai. Não obedecerão por medo ou sentimento de dívida, mas por amor, gratidão e consciência da graça. Obedecerão em oração, leitura interessada das Escrituras e vida devocional relevante. Em caso de desobediência, visto que não serão, por mais que se esforcem, impecáveis ou moralmente inculpáveis, pedirão perdão com espírito quebrantado e confiarão na purificação de seus corações. Sabem que Deus é fiel e justo. Suas vidas refletirão muito mais a presença de Deus que um padrão pessoal de comportamento. Como lembrou Eugene Peterson: “Nunca estamos tão vivos como no instante em que nos relacionamos com Deus”.

Jesus prometeu aos discípulos que lhes enviaria o Espírito Santo. Este os ajudaria em tudo e os lembraria de tudo que aprenderam. Revelou que o Consolador convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo, bem como produziria fé no coração dos que seriam salvos. É desse Espírito que precisamos. Da fé que Ele infunde nos corações. Spurgeon lembra-nos que “não é uma grande fé, mas uma verdadeira fé que salva”. Fé que faz viver acima da mediocridade. Fé que faz viver.

 

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