Qual teria sido o momento mais crítico da vida e do ministério de Moisés? A matança das crianças, quando do seu nascimento? A fuga do Egito, tal qual um inimigo público número um? A reapresentação diante de Faraó, com a ordem divina para tirar Israel da escravidão? As oposições no deserto, as crises de escassez, as batalhas contra os povos inimigos?

Acredito que o momento mais crítico na vida de Moisés deu-se em fase de tranqüilidade e rotina. Trata-se do episódio em que, solitário, dedicava-se a julgar os conflitos do povo, desde a manhã até o pôr do sol (Êxodo 18). Em todas as demais ocasiões, infinitamente mais intensas, estava seguro e dependia de Deus, que sempre lhe concedeu vitória. Neste caso específico, estava autoconfiante e considerava-se fundamental. Pela primeira vez, começava a ficar desprotegido e a agir de modo independente.

Líderes não naufragam por causa da grandeza de suas adversidades. Pelo contrário, é nelas que se revelam. Concordo com Charles Spurgeon: “muitas pessoas devem a grandeza de suas vidas aos problemas e obstáculos que tiveram de vencer”. Líderes naufragam por causa da arrogância de seus corações autocentrados e esquecidos da graça de Deus. Como diz o provérbio: “o orgulho precede a ruína”.

Moisés nunca esteve em tanto perigo como naquele dia em que, sozinho e enganado sobre sua própria importância e qualidades, considerou que ninguém era capaz de fazer o que fazia. Absolutizou-se. Acreditou que era necessário, assim como Aquele que o chamou. Esse é o pecado original e por excelência: sermos como Deus. Como já dizia Jean Paul Sartre: “o homem é, no fundo, vontade de ser Deus”.

Deus, por sua vez, teve compaixão de Moisés e o socorreu. Sua estratégia, a única realmente eficaz quando nos esquecemos de quem somos: a família. E eis que Jetro, o sogro, veio visitar Moisés, trazendo consigo a esposa de Moisés e os filhos de Moisés.

Nada como a família para nos livrar de nossas fantasias de suficiência e poder. No ambiente da família, líderes renomados e importantes dão lugar às pessoas reais que verdadeiramente são. Moisés havia se transformado num ícone para todo Israel e para o Egito, mas para Jetro ainda era aquele homem frágil e carente de um ombro amigo ou uma mão estendida, a quem dera abrigo no deserto. Era respeitado como autoridade por nações estrangeiras, mas amado como pessoa, sincera e livremente, por sua esposa e filhos.

A família nos ajuda a lembrar de nossas origens. Veja o nome dos filhos de Moisés: Gérson, porque dizia “fui peregrino em terra estranha”, e Eliézer, porque dizia “Deus livrou-me da espada do Faraó“. A família resgata nossa memória sobre os feitos graciosos do Senhor em nossas vidas. Não nascemos líderes; foi Deus – e somente Ele – quem nos conduziu até onde chegamos.

Com a família, podemos voltar a ser como crianças, pois sabemos que nos compreende sem julgamentos. Por isso, a alegria de Moisés em compartilhar com seu sogro tudo que havia experimentado no êxodo. Imagine um líder contando para os liderados ou companheiros de liderança os feitos que realizou; não correria o risco de ser considerado arrogante, orgulhoso ou convencido? Não pareceria querer contar vantagens? O ministério exige discrição e cuidados; a família nos permite sermos nós mesmos.

Mais importante que tudo: a família, por nos ver como somos, é capaz de nos confrontar sem pudores desnecessários. Quem mais, além de Jetro, poderia repreender Moisés quanto à centralização da autoridade e das realizações? Nem sempre os liderados têm coragem para apontar erros em seus líderes. Nem sempre outros líderes têm disposição ou acesso para tanto. Pessoas “pisam em ovos” para falar com grandes ícones e personalidades, mas a família, se preciso, “quebra o pau”.

Moisés, em família, voltou a ser o Moisés que Deus vinha usando com tanto poder e graça. Humilde, como todo servo deve ser, aceitou o conselho e o colocou em prática. Confiante, descentralizou a autoridade e formou novas lideranças para o povo. Morreu como maior nome de Israel. Não desviou-se, nem para a esquerda, nem para a direita, porque no momento mais decisivo de sua trajetória decidiu estar com os seus. Aprendeu que nenhum sucesso no ministério compensa o fracasso no lar. E não fracassou.

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