O perdão é mais que um mandamento; é uma condição sine qua non. É mais que uma demonstração de virtude; é uma experiência de fé. No exercício do verdadeiro perdão, a graça de um Deus que não leva em conta os pecados confessados se transforma em força para a superação das feridas e o restabelecimento dos vínculos de amor. Somente um cristão de coração sincero pode viver a verdade sobre o perdão em toda a sua plenitude. Perdão que vem de Deus, perdão que é oferecido aos outros.

Jesus ensinou que se não perdoamos aos nossos ofensores, tampouco o Pai Celestial nos perdoa a nós (Mt 6:9-15). Por quê? Porque o perdão é fruto de uma relação entre fé e graça. Quando pedimos perdão a Deus, demonstramos crer na eficácia de seu perdão e na graça que não se baseia em nosso merecimento ou capacidade de não mais errar. Se não perdoamos, demonstramos que não cremos no poder de um perdão liberado, muito menos na nossa dependência da graça de Deus.

Não perdoar alguém é como dizer que o outro não é merecedor da mesma graça com que fui agraciado. Trata-se de uma negação da graça, pois o favor de Deus é recebido como um prêmio, uma recompensa. O sujeito que nega o perdão acredita-se perdoado não porque Deus é cheio de graça, mas porque ele mesmo não é tão mal assim. O outro, porém, é muito pior; caso contrário, não faria tamanha maldade. Sobretudo, com quem se sente tão correto e tão justo. O pecador que nega o perdão não é perdoado, porque não acredita no perdão. Acredita em retribuição.

O perdão, para ser completo, exige a superação da ofensa. Superar não significa esquecer — o que não é possível, mas deixar a lembrança localizada no passado. Quando o perdão não é autêntico, passado e presente se misturam, provocando sempre os mesmos sentimentos. Deixar o passado para trás consiste em liberar o perdão e assumir o futuro como novidade. Não há nada definido, não pela ofensa. Deus continua Senhor da História, especialmente de minha história pessoal.

Perdoar, mas decidir apagar a pessoa da lembrança ou dos relacionamentos é como não perdoar. O episódio não é redimido, mas marcado para sempre. Vale lembrar, mais uma vez, a oração que Jesus ensinou: “perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6:9-15). Se alguém se vê capaz de pedir perdão a Deus e, ao mesmo tempo, aceitar que nunca mais estenda sua mão para lhe socorrer, poderá, então, admitir perdoar alguém e jamais estender-lhe a mão outra vez. Assim como perdoamos: condição sine qua non.

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