A comunhão da Igreja não é, exatamente, um desafio a cumprir ou um objetivo a perseguir. Não é um ideal, uma utopia, um sonho de esperança. Não está para o cristão como a santidade, a maturidade espiritual ou a ressurreição. Não é uma expectativa futura. A comunhão da Igreja é uma realidade presente, concreta, um chamado à rendição. Não é uma meta, mas um ponto de partida. Fomos unidos em Cristo nesta grande família do Pai. Fomos unidos pelo Espírito neste dinâmico e misterioso corpo do Senhor. Temos comunhão. Somos a comunidade de Deus.

O convite a uma comunhão planejada, procurada, que resulte da insistência por relacionamentos não desejados, mas obrigatórios – nada disso é a comunhão cristã. Tampouco o medo da solidão, do isolamento, da falta que faz “alguém com quem conversar” conduz à experiência da verdadeira comunhão. Para citar Bonhöeffer, “quem não suporta a solidão, que tome cuidado com a comunhão; quem não se encontra na comunhão, que tome cuidado com a solidão”.  A comunhão cristã é uma descoberta. Uma boa notícia sobre nossa nova condição em Jesus. Uma revelação a respeito de nossa inclusão, por Seus méritos, em algo muito maior que nós mesmos. Seu contrário e oposição não é a ausência de pessoas com quem compartilhar – seja o passar do tempo ou o oscilar das circunstâncias, mas a ausência de sentido, daquele sentimento de pertença que faz a vida valer a pena. Na comunhão celebramos a certeza de que não fomos deixados para trás por Aquele que é, sozinho, em si mesmo, pessoalmente, a vida e a razão de todas as coisas.

Na experiência da verdadeira comunhão o outro não é um desafio, mas um irmão. Não é um alvo a conquistar, mas alguém que combate na mesma trincheira em que também nos encontramos. Suas particularidades, história, preferências pessoais ou esquisitices não são barreiras a superar, como se, superando-as, fizéssemos um bem extraordinário, demonstração de nossa bondade e tolerância abnegadas. São, pelo contrário, evidências maravilhosas do grande amor de Deus, única referência real de perfeição e amabilidade, do qual somos, todos, totalmente diferentes. Pelo qual somos aceitos.

A comunhão na vitória de Cristo sobre o isolamento egocêntrico a que estávamos fadados é não só uma dádiva gratuita de Deus, mas, inclusive, uma obra permanente do Espírito. Sua presença entre o povo de Deus e nele próprio “funciona” como uma espécie de amálgama, de elemento unificador, a desbancar todas as iniciativas que visam destruir o corpo do Senhor. Sua ação é a garantia da vitória e da unidade deste corpo. Seu poder é a viabilização da vida deste corpo. Uma vida em amor.

Deixe seu comentário

WordPress Image Lightbox Plugin