Não tenho algo novo a dizer. A novidade não faz parte do meu trato comum. Sou especialista em textos antigos e valores já revelados. Minha tarefa diária consiste em aplicar o que já foi dito à vida presente das pessoas. Com linguagem e estratégias contemporâneas, é verdade, mas sem muita novidade. Sem qualquer novidade. Sobre a vida, aliás, faço coro com o autor do livro de Eclesiastes: “não há nada de novo debaixo do sol”.

Sou diferente dos professores. Estes precisam estar atentos às novidades. Lidam com o que há de mais moderno e revolucionário. Devem ser ousados e permanecer na vanguarda do conhecimento. Reciclam-se o tempo todo. Dominam os recursos científicos e tecnológicos de suas áreas, os mais recentes, quando não são os responsáveis diretos por alguns desses avanços.

Minha contribuição para os professores depende de uma pressuposição fundamental: no que se refere à tarefa de ensinar, sua efetividade ou sucesso, independentemente dos conteúdos que se queira ensinar ou metodologia de preferência, não há novidade que garanta a satisfação absoluta de quem ensina e de quem aprende. Não há novidade que facilite a relação com o ensino, seja ele qual for, do que for ou como for.

É claro que a novidade não está por aí, diante dos olhos de todos, numa espécie de prateleira da vida, onde fazemos nossas investigações e concluímos que, do que está disponível, nada é novo. A novidade surge de repente, sem avisar, mudando conceitos e quebrando paradigmas, colocando por terra o que foi dito antes (como o que estou dizendo, por exemplo). Quando afirmamos não haver novidade, estamos nos colocando sob o risco de sermos desmentidos no momento seguinte. Mas vou assumir este perigo.

É que tudo depende do modo como compreendemos a tarefa de ensinar. Se como atividade ou como relacionamento. Se como atividade, dependerá exclusivamente de virtudes como desempenho e capacidade. Se como relacionamento, dependerá de nossa disposição para compreender os agentes dessa relação. E estes permanecem os mesmos. Nós e os alunos. Eles e seus círculos particulares. As pessoas, em geral. O tempo passa, as coisas mudam, mas o ser humano é sempre igual. Suas demandas são iguais. Seus anseios mais íntimos são iguais. Seus temores e dificuldades interiores são iguais.

Não há novidade que garanta o êxito absoluto do ensino porque a tarefa do ensinador não tem como principal desafio as novas condições do contexto, mas os velhos problemas dessa relação. Os alunos normalmente não são como gostaríamos que fossem. A estrutura de que desfrutamos, por melhor que seja, jamais será ideal. O reconhecimento e a valorização com que ansiamos, por mais merecidos que sejam, nunca vêm. E nós, nós mesmos, não somos quem desejaríamos ser. Cansamos, desanimamos, nos irritamos, pensamos em desistir – e, às vezes, desistimos. Inclinamo-nos a negociar nossos valores mais caros a troco de quase nada. Se não nos cuidamos, terminamos por vender a alma.

Cai por terra em nossa experiência pessoal toda visão romântica do ensino e de sua importância. Ensinar é mais que uma vocação – o que, de fato, é; é mais que uma arte – o que também é. Para quem assume esse desafio todos os dias, com todas as dificuldades que essa relação implica, ensinar é uma angústia. Exige de nós mais do que somos capazes de oferecer. Esgota-nos. Mas no dia seguinte, de novo, estamos ali, prontos para continuar. Parafraseando o teólogo suíço Karl Barth, que falou dos apóstolos e profetas, posso dizer que professores e mestres não querem ser o que são. Eles têm que ser. E, todavia, eles são!

Se ensinar é mais que vocação ou arte – todos são verdadeiramente vocacionados? Todos são artistas? Talvez, sim. Talvez, não – e concordamos aqui que seja uma angústia – mais fácil imaginar que todos sejam angustiados, ao menos os que encaram suas próprias vidas com alguma seriedade – nosso desafio fundamental não é encontrar novos modos de fazer o que fazemos (o que podemos e devemos buscar sempre), mas um modo de sermos pessoas melhores, que lidam melhor com a angústia de sermos quem somos e de fazermos o que fomos chamados para fazer.

Alguns conselhos (e é aqui que acredito poder contribuir de alguma forma):

1) Renove-se todos os dias. Aprenda todos os dias. Não por causa do trabalho, mas por você mesmo. Não para competir com os outros, mas para superar a si mesmo. Não para ser reconhecido, mas para conhecer a si mesmo, com os eternos perigos que você representa. A busca incansável de uma pessoa não pode consistir em um desejo de posse, mas sobretudo de um desejo de ser quem se deve ser. Moltmann lembra que o ter deve ser superado pelo ser, até que o ser seja superado pelo devir.

Desenvolva um coração e uma mente ensináveis. “Coisa miserável é pensar ser mestre aquele que nunca foi discípulo” (Fernando de Rojas, em Roberto Harari – Uma Introdução aos quatro conceitos fundamentais de Lacan). “Uma das tarefas mais difíceis do mundo é ensinar um professor que perdeu a sua capacidade de ser aluno” (Augusto Cury). Nunca permita-se acomodar, por mais longe que tenha ido.

Diga ao seu coração, todas as manhãs, que trata-se de um novo dia, com todas as oportunidades pela frente. Não se trata de pensamento positivo, mas de um encadeamento de constantes decisões em favor da vida e do bem comum. O presente é começo puro (Emmanuel Lévinas). “A boa notícia é que a melhor época de sua vida pode estar à sua frente” (Tim Hansel, em Hal Urban – As grandes lições da vida).

Angústia é sentimento de inadequação. Na linguagem de Paulo Freire, sensação de inacabamento. Um descontentamento em relação a nós mesmos. Lacan disse: “Só me amo na medida em que me desconheço essencialmente”. A angústia de ensinar é a angústia de querer crescer e descobrir os inúmeros obstáculos que precisam ser superados. E podemos superá-los. E já os temos superado. Como disse Lutero: eu sei que eu ainda não sou quem deveria ser, mas também sei que já não sou quem eu era!

2) Privilegie processos e não resultados. Não são os resultados que conferem dignidade às ações, mas a correção em que transcorrem os processos. Resultados podem não aparecer, mas você terá se tornado uma pessoa melhor. Larry Crabb exorta que “quando agir certo é uma estratégia para obter o que desejamos, nossa energia é o orgulho e nosso foco é o ego”.

Ouse dirigir na contra-mão de uma sociedade pragmática e utilitária, marcada pela noção de que os fins justificam os meios. Tenha coragem de ser diferente. C. S. Lewis lembra que “onde não existe coragem, nenhuma outra virtude pode sobreviver senão por acidente”. Não aceite a falsa premissa de que algo só é certo se der certo.

Isso não quer dizer que os resultados não virão; somente significa que serão fruto de um coração íntegro e de um espírito dedicado. Resultados não são a causa, mas a conseqüência de nossas iniciativas. Nossas iniciativas são a extensão de nossa essência. Nossa essência deve ser ética e consistente independentemente das circunstâncias ou objetivos.

Viva com Propósito. Supere o lugar comum de uma vida pautada por objetivos e métodos. Uma das fábulas de La Fontaine conta que o vento perguntou ao fogo: “por que você está queimando a ponta do cordão?”. O fogo respondeu: “para o cordão não desfiar; mas eu gosto mesmo é de queimar”. Eis um exemplo de meta, objetivo e propósito. Meta é queimar a ponta do cordão; objetivo é não permitir que ele desfie; propósito é queimar. Essa é a essência do fogo. Você, professor, foi feito para queimar.

O ensino como angústia é uma descoberta de propósito que ultrapasse interesses e desejos. A angústia de ensinar é fruto da percepção de que o cordão pode até desfiar, mas eu não poderia ter fugido de quem eu sou. E me tornei alguém ainda melhor, por ter feito minha parte como sabia que deveria fazê-la.

3) Crie uma consciência solidária. Seja cooperativo. Construa relacionamentos com base na participação e no serviço. James Hunter definiu liderança como “a habilidade para desempenhar tarefas enquanto constrói relacionamentos”. Talvez, mais importante que chegar em algum lugar seja ter com quem chegar. Ensinar é mais que uma tarefa, é uma relação entre sujeitos de seu próprio conhecimento.

Queira ser útil mais do que destacar-se. Há uma diferença entre um e outro. Enfeites destacam-se sobre uma mesa, mas é a mesa que tem uma utilidade inquestionável. Ambos podem formar um conjunto harmônico e desejável, caso compreendam seus papéis.

Sirva as pessoas com seus talentos e habilidades. Martin Luther King Jr. afirmou que “quem não vive para servir, não serve para viver”. Há dois tipos de pessoas: aquelas que relacionam-se conosco porque esperam que preenchamos suas lacunas emocionais e aquelas que se relacionam conosco porque nos amam e desejam nos ajudar. Professores devem compor, preferencialmente, o segundo grupo.

A angústia de ensinar é, portanto, a busca pela humildade que o serviço exige. Servir é rebaixar-se para que o outro seja promovido. É dar de si mesmo, em amor. Amar é angustiar-se, pois não há controle sobre quem se ama. E só há vínculo quando há serviço. Vínculos verdadeiros não são firmados por exercícios de poder, mas por iniciativas do amor em serviço e dedicação.

4) Faça o que faz com algo maior que seriedade; faça o que faz com raridade. O consultor empresarial Valdez Ludwig, numa palestra, disse que não é a importância do que você faz que será valorizada, mas a raridade com que você faz. O mundo não está à procura de quem se disponha a fazer o necessário, mas de quem se disponha a fazer o diferente.

Note: renovar-se, valorizar processos, servir… nada disso é animador do ponto de vista da satisfação pessoal e do reconhecimento. São, na verdade, passos para uma total despreocupação com o reconhecimento. No entanto, esvaziados de toda expectativa de valorização, nos descobrimos capazes de oferecer exatamente aquilo que nos torna únicos. Essa unicidade tem muito valor. Raridade.

O piloto do carro não é mais importante que o mecânico; é mais raro. O professor universitário não é mais importante que o infantil; é mais raro. Pessoas raras fazem mais, melhor e, geralmente, de forma diferente. Não por obrigação, mas por prazer. Não por interesse, mas por ter motivação de sobra. Hal Urbam, no livro “Grandes Lições da Vida”, disse que “aprender é um prazer, não um dever”. Não é disso que se trata?

A angústia de ensinar é a angústia de quem busca seu lugar único nesse mundo porque sabe que o tem, mas esbarra todos os dias na tentação de acomodar-se e remar conforme a maré. E sabe que deve remar contra a maré. A nascente do rio está num paraíso magnífico.

5) Tenha fé. E, por favor, não feche sua mente agora. Até aqui só passei ao largo do que realmente gostaria de dizer. Não acredito seja possível dar todos esses passos contando exclusivamente com nossos próprios recursos internos e esforços. Não sei se há uma auto-ajuda, nesse sentido. Com o perdão do trocadilho, acredito em ajuda do alto.

O socorro para quem deseja ser uma pessoa melhor vem de Deus. Isso mesmo, de Deus. A descoberta de um Criador que conhece nossas fraquezas e possibilidades, conferindo força e propósito às nossas vidas, é o caminho da liberdade em relação ao desejo de reconhecimento e valorização por parte dos outros. Ele é o motivo da renovação, o agente que controla processos e resultados, o incentivo para servir, a certeza de uma vida rara.

A prova disso é seu filho Jesus Cristo, cujo exemplo nos constrange e desafia. Ninguém renovou-se a cada dia, mesmo diante das dificuldades e oposições, como ele. Ninguém dedicou-se a processos, mesmo com resultados aparentemente, ou realmente, negativos no ministério pessoal, como ele. Ninguém serviu e cooperou, ainda que não lhe tenham retribuído, como ele. Ninguém foi mais raro do que ele.

Ele é mais que um exemplo. Sua vitória é um convite à vitória. Não é observando-o, de longe, que venceremos, mas deixando-nos absorver por ele, invadirmo-nos dele, encontrando-nos nele em sua graça e Espírito, para que viva através de nós. Por ele descobriremos o privilégio de vivermos verdadeiramente como filhos de Deus.

Para terminar, duas citações que trazem consigo o espírito do que pretendi até aqui. A primeira é do reformador João Calvino: “Toda a nossa sabedoria, enquanto realmente merece o nome de sabedoria e é verdadeira e segura, abrange basicamente só duas coisas: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos”; a segunda, de Blaise Pascal: “Só existem duas espécies de pessoas a quem se possa chamar de razoáveis: ou os que servem a Deus de todo o coração porque o conhecem, ou os que o procuram de todo coração porque não o conhecem”.

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