“Visão Profética é contemplar o mundo e as pessoas através dos olhos de Deus”

(Henri Nouwen)

Moisés conduziu o povo às portas da Terra Prometida. Cumpriu sua missão e tornou-se, sem dúvida, o maior líder da história de Israel. Agora, era uma questão de entrar e tomar posse da herança. Não sem lutas, é verdade, mas com a certeza absoluta da vitória. Afinal, o Deus que andou com Seu povo no deserto, protegendo-o e sustentando-o, estava ainda presente e disposto a abençoar. O que poderia dar errado?

Do alto do Monte Nebo, em frente a Jericó, Moisés vislumbrou a Terra da qual Deus lhe falara. Deus mesmo lhe mostrou toda a sua extensão, relembrando-lhe a promessa que havia feito a Abraão, Isaque e Jacó. Seria, de então em diante, de toda aquela descendência. Foi uma visão maravilhosa de reconhecimento. Mas Moisés pararia por ali. Não entraria com o povo. Era sua última hora antes de suspirar e ser sepultado pelo próprio Senhor. Poderia ser mais injustiçado? Poderia sofrer dor maior que a de ser privado do que parecia ser o grande objetivo de toda sua vida?

Todos corremos atrás de muitas coisas. Todos temos nossos objetivos, sejam conscientes ou inconscientes. Almejamos sucesso, valorização, conquistas e projeção. Imaginamos que, se alcançarmos as metas que estabelecemos, seremos mais amados e mais felizes. Por isso, talvez, lidamos tão mal com as frustrações e os fracassos. São sinais, quem sabe, de que não lograremos êxito em nosso projeto de reconhecimento e satisfação. Falhar é sinônimo de insucesso e insucessos são para evitar ou esquecer. Não queremos que nos vejam como perdedores.

Terá sido Moisés um derrotado? Sua não entrada na Terra, um fracasso pessoal? Certamente, não. Moisés viu a Terra Prometida. Contemplou sua realidade. Assumiu, por sua confiança em Deus, o cumprimento da promessa que sempre o motivou. Não precisava entrar, já tinha visto tudo. No universo da fé, ver é mais importante que possuir. Ver é já possuir. Quem vê, tem, uma vez que vê exatamente o que Deus mostra. Para o crente, ser uma pessoa de visão é melhor que ser uma pessoa de posses.

O exercício da visão deve ser prioridade em relação a qualquer ambição. Quem tem ambição realiza-se apenas quando concretiza seus interesses; quem tem visão realiza-se no fato de ter sido chamado por Deus para uma obra especial. O ambicioso avalia a vida a partir de critérios de posse; o visionário avalia a vida a partir de critérios de essência: ser é melhor que ter. Quem tem ambição pode ou não chegar lá; quem tem visão chega antes mesmo do primeiro passo. A ambição tenta garantir um bom futuro; a visão antecipa o futuro e transforma-o num palco excelente para a manifestação do poder de Deus.

Jesus Cristo ensinou seus discípulos sobre o poder da visão. Fez-lhes ver os campos brancos para a ceifa, embora tivessem tamanha oposição ao seu redor. Fez-lhes ver, em alguns pães e peixes, alimento abundante para toda uma multidão. Fez-lhes ver, ainda que nem todos tenham visto, a vitória da vida onde só poderiam enxergar a morte: na cruz! Como profetizou Isaías a respeito do Messias: “ele verá o fruto de seu penoso trabalho e ficará satisfeito” (53:11).

Moisés viu a Terra e já podia despedir-se dela. Tinha outra herança para receber. Muito mais desejável e muito mais preciosa. Seu fracasso, aos olhos do mundo, foi exatamente sua recompensa, aos olhos da fé. Viu e morreu, assim como Simeão, que colocou seus olhos no recém-nascido Jesus e exclamou: “agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, conforme a Tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lucas 2:29-30). De gente assim o autor de Hebreus falou, quando escreveu: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (11:13). Líderes de visão.

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