“Quem é rico em sonhos nunca envelhece”

(Rubem Alves)

Moisés foi chamado para sua missão de liderança quando a maioria pensaria em se aposentar. Tinha oitenta anos, quando Deus lhe apareceu numa sarça ardente e não consumível. Aos olhos de muitos departamentos de recursos humanos, seria “carta fora do baralho”. Aos olhos de Deus era a pessoa ideal: Ele escolhe as coisas loucas… Escolhe os que nada são.

Se, pelo menos, Moisés estivesse no auge de sua capacidade produtiva, como um empresário já idoso que ainda dirige seus negócios com lucidez e eficiência, tudo bem. Mas havia se transformado em menos que uma sombra do homem que fora no passado. Da glória e das ciências do Egito não sobraram sequer memórias. Toda sua rotina consistia de cuidados sobre um rebanho que nem a ele pertencia.

O mundo contemporâneo tende a ser cruel com os que já ultrapassaram certo limite, subjetivo, é bem verdade, de idade e experiência. Os mais jovens teimam em não considerar o valor e a importância dos mais velhos. Sobretudo, quando acumulam histórias de fracasso e frustrações em sua biografia. São tratados como lixo.

Moisés já não tinha juventude, mas descobriu que disposição é fundamental. Um líder não é feito de recursos ou habilidades em abundância, mas de coragem, entrega e sabedoria para enfrentar desafios. A disposição torna-se, então, fonte de juventude: Moisés já tinha cento e vinte anos quando chegou à entrada da terra e seus olhos ainda tinham brilho. Seu vigor não diminuiu, embora suas limitações só tenham aumentado. Precisou de quem o ajudasse a manter os braços erguidos, mas nenhum outro braço produziria tamanhos efeitos.

Jovens sem disposição são como velhos doentes e desencantados com a vida. Velhos dispostos são como meninos que ainda se mostram capazes de criar, servir e amar. A disposição supera a ausência de certas condições em razão de sua incessante procura pelos melhores caminhos e alternativas. De que vale um jovem vigoroso e saudável, se na batalha o encontramos escondido nas trincheiras da covardia e da deserção? Um idoso cheio de confiança e com vida de oração será infinitamente mais útil. Decisivo, até.

Jesus desafiou seus discípulos à disposição, muito mais que ao uso da força e das habilidades naturais. Lembrou-lhes que o Espírito Santo supriria todas as suas necessidades, desde que, em lançando mão do arado, não olhassem para trás. Ele mesmo era de uma disposição impressionante: “meu pai trabalha até hoje e eu trabalho também”. Ensinou que a disposição nivela jovens e velhos nas fileiras das batalhas em nome do Senhor. Veja-se, por exemplo, a disposição do velho Abrão e do jovem Davi.

Moisés morreu aos cento e vinte anos e o povo pranteou sua partida nos limites da lei de Deus. Nem um dia foi desperdiçado. Não estavam despedindo-se de um peso morto, inútil, mas de um líder que deixaria muita saudade. Josué estava pronto para substituí-lo e Deus continuaria a frente de Seu povo. Mas Moisés era importante. Tinha uma disposição que transmitia segurança e ânimo. Jamais seria esquecido. Nele cumpriu-se a palavra do salmista, quando diz: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça” (92:12-15). Palavra que deseja cumprir-se na história de todos nós.

 

Deixe seu comentário

WordPress Image Lightbox Plugin