Sobre Canas, Pavios E Gente Que Deus Levanta!

“Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega, até fazer vencer o juízo.

No seu nome esperarão os gentios” (Mateus 12:20-21).

Observar as crianças sempre ensina alguma coisa. Tome-se, por exemplo, uma festa de aniversário. Há sempre muitas delas ao redor do bolo, à espera das velas acesas e do “parabéns pra você”. Terminada a canção, um festival de sopros (e salivas) dirige-se contra as chamas, que rapidamente se apagam. Fumaça se espalha pelo ar. Então surge um menino, geralmente um pouco mais velho que os demais, mãos em concha ao redor da vela, como se desejasse protegê-la da mais leve brisa. Não passa muito tempo, ei-la outra vez, a chama, acesa e iluminando, pronta para ser soprada novamente.

Conheço pessoas que não podem ver algo quebrado; logo desafiam-se a consertá-lo. Normalmente são homens mais maduros, experimentados, a quem a vida ensinou a bela lição da paciência. Mais que isso: aprenderam que para tudo há uma solução e um valor. Têm prazer em servir e ficam sentidos quando não conseguem ajudar. Chegam a constranger-nos quando veem que estamos ávidos por descartar alguma coisa que já não nos oferece utilidade. Esforçam-se para convencer-nos de que tudo pode voltar a ser útil num futuro próximo. Gastam tempo com aquilo que, para muitos, não passa de lixo.

Aprendi que, por várias razões, pessoas outrora úteis e bem dispostas, cuja chama brilhava e trazia alegria, tornam-se amargas e sem esperança. Algo de suas biografias roubou-lhes o ânimo e a capacidade de sonhar. Tornaram-se inimigas de si mesmas e, consequentemente, daquelas que as cercam. Vivem em pecado e distantes de Deus, muito mais em razão de suas mágoas e desilusões espirituais que em função de um aparente ateísmo. São como canas quebradas pela força dos pés que as pisaram. São como o pavio de uma vela açoitada pelos ventos. Não produzem outra coisa que não fumaça. Estão no “fundo do poço”.

Jesus tinha prazer especial em tratar com tais pessoas. Ocupava-se delas, geralmente sob o preço de afastar-se dos “justos” e religiosos de sua época. Gostava de dizer que veio “buscar e salvar os que se haviam perdido”. Tamanha era sua preocupação com os desiludidos e desesperançados, que foi identificado pelo evangelho como o cumprimento da profecia de Isaías, o qual descreveu o Messias como alguém que não esmagaria a cana quebrada nem apagaria o pavio fumegante. Seu toque não seria, jamais, um golpe final, de misericórdia (a pá de cal, como costumamos dizer), mas o carinho de uma mão estendida, solidária, pronta para levantar o caído.

Estranho quando, na igreja, crentes aparentemente mais maduros tornam-se os algozes definitivos de quem já se encontrava num buraco. São destruidores de canas quebradas, extintores de pavios que mal fumegam. Repetem frases do tipo “eu sabia”, “eu disse”, “nunca esperei nada dessa pessoa e fiz muito bem”, entre outras. Oram pouco e, quando o fazem, falam sobre si mesmos e suas virtudes, tal como fez o fariseu em sua prece de si para si mesmo. Isso quando não desejam o “fogo do céu” sobre samaritanos que ainda não compreenderam o mistério da graça de Deus.

Precisamos de crentes crianças, mãos em concha, protetoras de pavios. Precisamos de crentes maduros, com mãos sensíveis e, ao mesmo tempo, firmes, prontas para consertar o que estiver quebrado. Precisamos de pessoas que amem a Cristo e sirvam ao Deus que não se cansa de levantar o caído.

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