O Adão Presente em cada homem

Marcelo Gomes

Adão foi o primeiro homem. Os primeiros nos abrem o caminho. Vão à frente. Se acertam o passo, facilitam para todos os demais. Se erram, devem servir de exemplo para que evitemos os perigos em que caíram. E Adão caiu. Trocou o chamado ao desempenho abençoador pela acomodação omissa. Abriu mão da realização da fé e desobedeceu. Ao invés de amar sem reservas, deixou sua mulher aos próprios cuidados e comeu o fruto do orgulho e da pretensão. Homem que era, caiu, até porque ninguém disse que a masculinidade é infalível ou capaz de produzir uma pessoa perfeita.

Adão caiu como homem, mas não se levantou como um. Pelo menos, não de imediato. Sempre ouvi dizer que a diferença entre as pessoas não é que umas caem e outras não; a diferença está no tempo que levam para se levantarem. A queda de Adão foi real e dolorosa, mas Deus deu-lhe oportunidade para posicionar-se de outra forma. “Adão, onde você está?” – perguntava o Criador em busca do homem. Não que não soubesse onde ele se encontrava, mas desejava que se apresentasse. “Quem lhe disse que você estava nu?” – continuou, dando ao caído a chance de contar o que houve. “Você comeu do fruto da árvore?” Estava mais do que clara a razão de toda a confusão…

As três perguntas de Deus sugerem algumas lições importantes. A primeira é que Deus, cedo ou tarde, pedirá contas ao homem (ao que tudo indica, é mister da masculinidade ocupar o primeiro lugar na fila do juízo). Criado para o desempenho corajoso, ele deve apresentar-se rapidamente. Abençoado com o privilégio de realizar, deve apresentar os frutos de sua mordomia. Chamado a amar sem reservas, deve responder pelo compromisso de fidelidade e dedicação que estão implicados em todo desafio de amor. E não poderá se esconder, ainda que o queira. Emil Brunner escreveu que “o âmago do ser do homem é a responsabilidade, e a responsabilidade é a essência da humanidade”.

A segunda lição é que Deus sabe quem é o homem. Não há máscaras que O possam enganar. De nada serve ao homem lançar mão de adereços que ocultem suas vulnerabilidades e lhe favoreçam o desempenho. De quem tem medo? A quem quer agradar, exatamente? Quem lhe diz que está nu e precisa cobrir-se? Aqui é quando a realização da fé e da confiança dá lugar a esforços baseados em complexos da autoestima. Aqui é quando a missão de amar perde espaço para o anseio de ser amado, ainda que isso, aparentemente, exija a construção de uma imagem ilusória ou de fachada. Carl Rogers escreveu: “sinto muito mais prazer na vida quando não sou defensivo, quando não me escondo atrás de uma fachada, mas apenas tento ser e exprimir o meu verdadeiro eu”.

A terceira lição é que em Deus não há lugar para vitimismos. Pior que negligenciar responsabilidades ou ceder aos complexos de inferioridade é atribuir aos outros a culpa das próprias ações e decisões (note que Adão, ao defender que foi da mulher a culpa por ele ter comido do fruto, culpou também a Deus, que lhe deu a mulher). Vitimista é quem justifica seu caos pessoal em razão da participação prejudicial de outros em sua vida. Machado de Assis chamou-o de choramingas: “a pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas”.

Para o vitimista, não fossem os outros, ele não seria complicado como é, ou não faria o que fez de negativo. Seu compromisso com o desempenho está desconectado do compromisso com Aquele que o comissionou, fazendo com que precise encontrar culpados para o seu fracasso. A realização do bem deu lugar ao mal e, com este, veio a maldade que consiste em condenar o outro para escapar de uma provável condenação. O amor, assim, termina vencido pelo rancor, pelo ressentimento e pelo ódio.

Adão tentou esconder-se e ocultar sua nudez. Quando, finalmente, foi descoberto, tentou transferir a culpa de modo covarde. A dupla disciplina que recebeu reforça nossa compreensão sobre sua necessidade de ajuda: a maldição sobre a terra exigiu que assumisse as consequências da irresponsabilidade; o anúncio da morte inevitável chamou-lhe a atenção para a realidade de seu ser em toda sua fragilidade e vulnerabilidade. Mas quando Deus lhe fez roupas de peles de animais, reafirmou seu amor e cuidado, mostrando ao homem que jamais o abandonaria. É o Deus que nos coloca, sempre e novamente, em pé, pois onde Adão fracassou, Jesus Cristo venceu. Nas palavras do apóstolo Paulo:

Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados… O primeiro homem, Adão, tornou-se um ser vivente; o último Adão, espírito vivificante. (1 Coríntios 15:21-22 e 45).

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