MISSÃO E PROPÓSITO 

 

José Drailton

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João 10:10) 

As quatro grandes perguntas filosóficas que resultam das inquietações humanas são: quem eu sou? De onde vim? Para que existo? Para onde vou? Desde os primeiros filósofos, os pré-socráticos, até os nossos dias, envidam-se esforços homéricos para encontrar respostas às indagações, inquietações e angustias existenciais. O homem busca desesperadamente encontrar o sentido da vida, o significado e propósito de sua existência. Procura fazer e experimentar algo que faça sentido, que preencha o vazio interior, que dê satisfação, senso de realização e a tão desejada felicidade.

A bem da verdade, todos desejam algo que lhes mova, que lhes motive, algo que lhes faça sair da cama todos os dias, que encoraje e dê prazer, que dê senso de importância, de reconhecimento, de pertencimento e plenitude. Saber para que existo, qual minha missão e propósito nesse mundo, é condição indispensável para uma vida plena, realizada e feliz. É preciso, portanto, saber que o significado da nossa vida está intrinsecamente relacionado com a compreensão da nossa missão e propósito. Nossa missão de vida é a base para trilharmos um caminho, e o significado de viver a vida é atender a uma missão. Essa missão é o que nos norteia para construirmos a história da nossa própria vida.

Segundo José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching, missão é o princípio, meio e fim de tudo. É o que norteia cada uma de nossas atitudes, aprendizados e conquistas. Quando entendemos a nossa missão de vida, o nosso papel no mundo, tudo fica ainda mais claro e começa a fazer real sentido. O propósito, entretanto, afirma o referido autor, é a finalidade última de todas as coisas que fazemos ou deixamos de fazer, relaciona-se a intencionalidade. O propósito também é um objetivo ou algo que se quer conseguir. E, em um nível mais profundo e transcendental, o propósito de um ser humano é o sentido que dá à sua vida.

 

Saber nossa missão de vida e propósito, é também o antídoto para vencer o desânimo, o vitimismo, a culpabilidade, o julgamento, a preguiça, a indisposição, a procrastinação, o stress e os maus tratos que em alguns momentos da vida sofremos. Numa linguagem metafórica, tal conhecimento é “substância” e “nutriente” que nos faz fortes e resilientes para lidar com os eventos e estímulos externos, muitas vezes nocivos e destrutivos. E mais: saber a nossa missão e propósito de vida é força motriz para a busca da excelência, da superação, dos melhores resultados, de uma vida dinâmica, alegre, apaixonante, abundante, frutífera, prospera, com possibilidades infinitas em Deus e, por que não dizer, uma vida extraordinária!

Jesus Cristo sabia com muita clareza qual era sua missão e propósito. Ele disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). Para mim, Ele é Deus, Senhor e Salvador; para outros, Ele foi um grande mestre, um grande profeta, um grande filósofo, um ser iluminado. Não obstante as diferentes concepções que tenhamos a respeito de sua pessoa, todos concordamos que Ele foi um Ser que viveu intensamente cada momento, com profundo significado e consciência de quem ele era, de qual sua missão e qual seu propósito de vida. Suas últimas palavras, antes de morrer, foram: Está consumado! Ou seja, Ele viveu a atemporalidade do tempo em trinta e três anos; cumpriu sua missão e viveu com um propósito norteador, de modo que marcou a história, tocou, curou e transformou a vida de muitos. Sobretudo, deixou-nos um grande legado: amor incondicional. Nas palavras de Clóvis de Barros, filósofo brasileiro, em uma de suas palestras: “Ele nos ensinou o filé mignon da vida: o amor.”

Quando conhecemos e vivemos alinhados com nossa missão de vida e propósito, vivemos a atemporalidade do tempo. A linha que estabelece os limites entre trabalho e lazer fica muito tênue, e muitas vezes até desaparece, pela paixão que nos move a fazer o que fazemos, e pelo prazer que experimentamos ao fazer. De um modo geral, nossa missão é amar, promover o bem, a paz e a justiça no mundo. Nosso propósito maior é viver em harmonia com Deus, com as pessoas e com o cosmo. E podemos fazer isso como sacerdotes, mestres, músicos, médicos, mecânicos, professores, filósofos, psicólogos, donas de casa, marceneiros, serralheiros, pedreiros, advogados, engenheiros, arquitetos, empresários, comerciantes, vendedores, coaches, securitários, zeladores, juízes, funcionários públicos etc.

Se vale a pena ser feito, vale a pena ser bem feito, ser feito com “alma”. Com esse olhar, não teremos apenas uma profissão, uma ocupação ou um emprego, não seremos movidos pura e simplesmente pelo dinheiro (embora seja muito importante, virá como resultado, não como causa); cada ofício será exercido como missão de vida e inspirado por um fio condutor, nosso propósito. O que importa é se o que fazemos tem profundo significado, se fazemos com paixão, com esmero, com alegria, com amor, e com a convicção de que estamos cumprindo nossa missão e vivendo cada segundo, minuto, hora, semana, mês e ano intensamente, com propósitos claros e nobres. O que de fato importa, é se estamos fazendo a vida valer a pena, se estamos vivendo com “alma”. Pois, como disse Jesus: “o que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

 

Viver com alma é viver cada instante intensamente tocando pessoas com o melhor de cada um de nós, aquecendo vidas com centelhas de graça, generosidade, afeto, cordialidade, solidariedade e respeito. Isso acontece quando vivemos nossa missão e propósito. Como já dizia o poeta: “é preciso saber viver”. Não vale a pena fazer por fazer, viver por viver, fazer de conta, empurrar com a barriga. Não acredito que seja sábia a filosofia do “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Como afirmamos no início, e conforme todas as escolas da psicologia: as pessoas tem necessidade de significado, de pertencimento, de valoração, de aceitação, de realização, de viver e fazer algo que valha a pena, isso é inerente ao ser humano. Como bem disse o poeta Almir Sater: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, e ser feliz”. 

O que fazer para descobrir nossa missão de vida e propósito? Via de regra nossa missão de vida e propósitos estão ligados a sete fatores:

1 – Aquilo que nos move, que nos coloca em movimento, que nos faz sair da cama, da inércia, e nos leva a ações e atitudes proativas, realizadoras, independentemente de circunstâncias favoráveis, adversidades, contratempos e intempéries da vida. Algo que nos inspira.  O que é que faz você acordar, todos os dias, energizado? Muito provavelmente, isso tem a ver com a sua missão. Se, porventura, nesse instante, você se vê sem esse algo, acredite que ele existe e que é acessível a você; busque-o ou permita-se ser encontrado por ele.

2 – Aquilo que nos dá prazer, que fazemos sem nos preocuparmos com o tempo, que tira o nosso sono e, muitas vezes, faz com que esqueçamos até de comer… Como já dizia Confúcio, filósofo chinês: “escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”Partindo desse pressupostoouso afirmar que missão é a tarefa que realizamos com satisfação.

3 – Aquilo que fazemos bem, que fazemos melhor, e que se relaciona com nossas habilidades. Obviamente, devemos e podemos nos aperfeiçoar em tudo, podemos aprender sempre e em todas áreas, mas sempre haverá algumas coisas para as quais temos mais habilidades, que fazemos melhor e que, em havendo dedicação, faremos com excelência e nos destacaremos por isso. Como bem disse o sábio Salomão: “Vês a um homem perito na sua obra? Perante reis será posto; não entre a plebe (Provérbios 22:29).

4 – Aquilo que beneficia outros, que será útil e que contribui para o próximo. É sem sentido, limitante e pobre uma vida egocêntrica, cujas realizações são voltadas única e exclusivamente para si. Não existimos para ser como o lago, que recebe as águas da nascente e da chuva, e as retém, mas para ser como o rio, compartilhando nossas “águas”. Não existimos para ser ilha, e viver no isolamento, mas para ser mar, nos conectando com as “águas dos oceanos”, que são as outras pessoas. Acredito piamente que juntos somos mais fortes, iremos mais longe e chegaremos mais rápido, unidos nos mesmo propósito.

5 – Aquilo que deixará um legado, que faremos para um mundo melhor. Uma vida com significado, extraordinária, é vivida de tal modo que, ao findar o seu tempo aqui nesse mundo, deixará suas marcas do bem impressas em outras pessoas, sejam os pais, o cônjuge, os filhos, os amigos, funcionários e até mesmo a sociedade em geral. Viver consciente, intencional e dedicadamente a nossa missão e propósito, sem dúvida, será a maior contribuição que deixaremos. É inconcebível pensar numa missão que não resulte em contribuição.

6 – Aquilo que está conectado com Deus. Com todo respeito, caro leitor, querida e preciosa pessoa, que pode crer de modo diferente, ou até mesmo não crer: para mim, Deus é o início, meio e fim de todas as coisas, é o Senhor, provedor e sustentador do universo. Na linguagem do evangelista, historiador e médico Lucas: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28). E como disse o escritor Tiago: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1:17). Parto do pressuposto que toda missão nos é dada por Deus e que, por coerência, está a serviço da vida e do bem.

7 – Aquilo que ecoará para a eternidade. Todos sabemos que somos transeuntes, passageiros, peregrinos nessa vida. Vivemos o paradoxo da finitude e eternidade ao mesmo tempo. Finitude no que tange a materialidade do corpo, a nossa vida aqui, e eternidade no que concerne a alma, nossa vida póstuma. Para mim, o céu, o paraíso; para alguns, o purgatório; para outros, a conexão plena com o cosmo. A questão é: o que seguirá conosco quando partirmos dessa vida? Visto que nada de material levaremos, nossa missão de vida e propósito devem estar permeados de princípios e valores que permaneçam para sempre. Logo, é sábio investir a vida no que se eternizará.

Quanto mais desses fatores estiverem presentes no que você escolher e decidir fazer, maior significado terá a sua vida, mais alinhado você estará com sua missão e propósito. Logo, mais feliz você será. Sendo assim, acredite! Não são os eventos em si mesmos que nos farão felizes, mas o significado que damos a cada momento, a cada experiência como oportunidade, dada por um Deus maravilhoso, de viver, de aprender, de servir, de tocar a vida de outros com a centelha do seu amor, na prática do bem, da solidariedade, da generosidade e na promoção de um mundo melhor.

Do mesmo modo, as angústias, o sofrimento e as lágrimas também tem um profundo significado, uma finalidade maior. Eles nos fazem mais humildes, mais perseverantes, mais resilientes e compreensíveis, mais pacientes e experientes, mais sábios e fortes, mais preparados para a vida. Como bem disse o poeta Francisco Otaviano: “Quem passou pela vida em branca nuvem, e em plácido repouso adormeceu; Quem não sentiu o frio da desgraça, Quem passou pela vida e não sofreu. Foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu.” E como disseram os poetas populares Vinicius de Morais e Toquinho: “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.” 

Enfim, tudo isso nos faz perceber que somos humanos, que temos muitas limitações, mas, também, que temos potenciais gigantescos e possibilidades infinitas em nosso Deus. Quando entendemos nossa missão e propósito, e vivemos alinhados com eles, farão sentido tanto as conquistas como as perdas, o sucesso e o fracasso, as vitórias e as derrotas, os sorrisos e as lágrimas. Todas as experiências deixarão em nós marcas indeléveis que nos enriquecerão como pessoas. Cada alegria e dor, acerto e erro, realização e frustração nos farão mais fortes, nos acrescentarão algo no cabedal de conhecimentos, nutrirão nosso histórico e formarão em nós lastros que nos diferenciarão para sempre.

A você, caríssimo leitor, muita gratidão pela sua preciosa atenção e pela disposição de caminhar comigo até o final desse texto. Desejo sinceramente que você descubra sua missão e propósito, que viva com significado, que viva plena e abundantemente. Isso é perfeitamente possível, pois Jesus veio para que tenhamos vida, e vida com abundância.

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José Drailton é teólogo, filósofo, coach e pastor titular da Igreja Presbiteriana Independente Central de Cuiabá. É casado com a Sara e pai da Hávila.

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