HOMENS E IRMÃOS

Marcelo Gomes

A Bíblia nos apresenta inúmeros casos de relações conflituosas entre irmãos. José foi vendido por seus irmãos, e tornou-se escravo na terra do Egito. Moisés foi questionado em sua autoridade por seus irmãos, mesmo depois de ter sido aprovado por Deus com sinais e maravilhas. Davi foi censurado e prejulgado duramente por seu irmão Eliabe, quando foi servi-lo no campo de batalha. Caim matou Abel.

O trato com o irmão, o semelhante, o próximo ou, simplesmente, o outro é um desafio da masculinidade. Ser homem é ser capaz de se relacionar sem rivalidade, ciúmes ou ódio, construindo identificações positivas e amando, inclusive, o intruso. Como escreveu Leonardo Boff, o homem está chamado, dentre outros, a “conviver e ser irmão”.

Caim foi o primeiro filho de Adão e de Eva após a queda e expulsão do paraíso. Esse contexto de perda e sofrimentos exacerbou a importância de sua chegada, a qual foi assumida como uma manifestação da graça de Deus, a renovar os caminhos da vida. “Tive um filho com a ajuda do Senhor!” – exclamou a mãe, com a criança nos braços. Eis o significado do nome dado ao menino, que, adulto, tornou-se agricultor, ou seja, o dono da terra.

Abel, filho mais novo em relação a Caim, nasceu num momento diferente da vida de seus pais. Ao que parece, eles já estavam adaptados e habituados à nova situação. Chamaram-no de Abel, nome que, numa tradução livre, significa “vácuo”, “vazio”. Esse nome sugere que sua chegada não foi celebrada, como fora a chegada do seu irmão mais velho. E ele se tornou pastor de ovelhas, ou seja, o peregrino pela terra, sempre em busca de pastagens.

A chegada de Abel não foi para Caim, num primeiro momento, um problema ou um trauma. Pouca coisa mudou para ele durante a infância de ambos. Até que compareceram diante de Deus, para oferecerem as primícias de sua produção, os primeiros frutos de seus trabalhos. Surpreendentemente, Deus aceitou a oferta de Abel, mas rejeitou a oferta de Caim, a quem disse que deveria mudar de postura.

Foi exatamente nesse episódio que Caim experimentou o que Jacques Lacan denominou “Complexo de Intrusão”, experiência que o sujeito realiza quando se reconhece como tendo irmãos. E não foi fácil para ele. Tanto que, na sequência, matou seu irmão.

O complexo de intrusão é um desafio que enfrentamos em relação aos irmãos, aos semelhantes e ao próximo em geral, quando somos surpreendidos por sua chegada em nossas zonas de conforto ou domínio. Sua dinâmica compreende quatro fases: a fase do estranhamento, a fase do ressentimento ciumento, a fase da fantasia regressiva e a fase da aniquilação intencionada.

estranhamento ante o recém-chegado é praticamente inevitável, visto que nasce da percepção objetiva da presença “intrometida” desse outro como diferente e concorrente. Caim estranhou o fato de, pela primeira vez na história, Abel tomar-lhe a frente. “Quem é esse que chegou e ocupou um espaço que era meu? O que aconteceu aqui? Algo está errado, pois não deveria ser assim!” São perguntas como estas que a mente se faz nessa fase. Irmãos experimentam-na com intensidade. Um pai pode experimentá-la em relação à mulher quando do nascimento de um filho. Um profissional pode experimentá-la na chegada de um funcionário novo ao setor. Um empresário, na abertura de um comércio concorrente em sua área de atuação.

Caim estranhou Abel naquela cena, antes impensável, de primazia e destaque. Contudo, poderia ter lidado bem com a novidade. Poderia ter se alegrado. Poderia ter feito uma autocrítica construtiva, como o próprio Deus lhe sugeriu: “se você agir bem é certo que será aceito!” Poderia ter pensado em meios para aprender com Abel e também ensiná-lo, numa troca que culminaria, certamente, no crescimento de ambos.

ressentimento ciumento é uma consequência da absorção do estranhamento como ofensa, perda ou prejuízo. O semblante de Caim se enfureceu e seu rosto se transtornou. Ele concluiu que foi injustiçado, desprezado cruelmente e negligenciado em sua importância. Sentiu-se não apenas ameaçado, mas agredido e maltratado. Acreditou que teve seu espaço de direito invadido.

Caim não considerou a oportunidade que teve para ampliar espaços ou encontrar novas fontes de segurança, e não se lembrou da importância de juntar tesouros onde o intruso jamais pode entrar. Ele preferiu a raiva, a revolta e a fúria.

Chamo de fantasia regressiva a fase em que o usurpado relembra ou recria para si (regressão), com altas doses de imaginação inventiva (fantasia), o contexto anterior à intrusão. Caim pensava que um mundo sem Abel era melhor do que um mundo com Abel. Que saudades de uma época em que o outro não existia! Essa fase tem poder para enganar e adoecer o coração. Como assim era melhor antes? Como seria um mundo em que o outro nunca chega? Como saber, na chegada, qual será o efeito da existência do outro sobre a minha vida, se negativa ou positiva? Num mundo sem o outro, eu existiria? Não sou o outro para alguém? A vitória sobre a fantasia regressiva depende de muita reflexão sensata e, finalmente, de muito compromisso com o futuro.

Na última fase, a tragédia mora. Na última fase, o ressentimento e a saudade de um mundo sem o outro dão lugar ao desejo de aniquilá-lo. E o desejo, se não contido, dá lugar à iniciativa, seja ela consciente ou inconsciente, interior ou exterior. Nas palavras de Jesus: “vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. Qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno”. Em poucas palavras, quem odeia seu irmão já o matou.

Para lidar bem com o complexo de intrusão, é preciso transformar o estranhamento em alegria curiosa e aberta para o novo, pois não há o que temer. Assim, ao invés do ressentimento ciumento, virá o aprendizado que conduz ao crescimento e ao amadurecimento, os quais proporcionarão mais e melhores experiências. Então, vencida a necessidade psicológica de se construir uma fantasia regressiva, abrigam-se os sonhos comuns e a esperança de um futuro promissor e frutífero. Não haverá mais qualquer espaço para a intenção perversa, pois o vínculo será o amor como compromisso de amizade e companheirismo.

O caminho da vitória sobre o complexo de intrusão é o caminho da fé em Jesus Cristo, que se fez de intruso em nossa história e tornou-se vítima de nosso estranhamento, a ponto de sofrer a morte que lhe impusemos. Mas fez isso para que pudéssemos ser os benditos “intrusos” na casa do Pai, onde Ele mesmo foi preparar-nos lugar. Como escreveu o autor da epístola aos Hebreus, “Ele não se envergonha de nos chamar de irmãos”.

 

Em Jesus, a alegria própria dos relacionamentos abençoadores é tamanha que somente a compaixão pelos que sofrem as violências de um mundo onde o outro não é bem-vindo lhe pode ser comparada. Ele morreu como intruso malquisto para ressuscitar como o primogênito dentre muitos irmãos. Ele pagou o preço dos nossos pecados para que não precisássemos mais acusar ou culpar o outro por nossas frustrações ou desilusões. Ele entregou sua vida para que pudéssemos aprender que não há maior amor do que este: dar a vida em favor do irmão.

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