UMA TRAGÉDIA CHAMADA OMISSÃO

Marcelo Gomes

Homens bons e crentes podem, em razão de suas frustrações ao longo da vida, se tornar omissos. Abrão, como era chamado o “Pai da Fé” antes de ter seu nome alterado para Abraão, é um exemplo dessa verdade. Sua biografia foi marcada por omissões graves, que resultaram em grandes dificuldades para ele mesmo e para os que o cercavam. Vale salientar, no entanto, que determinadas omissões pontuais não fazem de um homem, necessariamente, alguém omisso, mas também é fato que o omisso sempre se revela através de omissões pontuais. Por isso, todo cuidado é pouco!

O episódio de omissão mais evidente da vida de Abrão envolveu Sarai, sua mulher, e Hagar, a serva dela. O contexto, conhecemos: o casal, que não tinha filhos, esperava o cumprimento da promessa de Deus a respeito de um filho e, consequentemente, uma numerosa descendência. Abrão tinha 75 anos quando recebeu tal promessa. Mas aconteceu que os anos se passaram e nada do filho chegar. Foi quando Sarai perdeu a paciência e teve uma ideia: sugeriu ao marido que fizesse um filho com Hagar, ao que ele aquiesceu. Daí por diante, foi uma confusão só.

Abrão praticou a omissão em três níveis: no nível da decisão, no nível do conflito e no nível da intervenção. No primeiro, omitiu-se da decisão e aceitou acriticamente as orientações de sua mulher. Ele tinha uma promessa, conhecia os seus detalhes, podia ter abraçado sua esposa, ajudado-a a crer, confiar, esperar, mas ficou com a decisão de Sarai. Quem se omite da decisão permite que outros decidam por ele.

A falta de resultados favoreceu a omissão no nível da decisão, pois muitos homens não lidam bem com cobranças. Entendem, erroneamente, que a ausência do que foi prometido, objetiva ou subjetivamente, furta-lhes o direito de manterem sua autoridade e atuação na condução de certas questões. E, conquanto tenha sido Sarai o “pivô” do movimento desencadeado pela falta, a omissão de Abrão foi escolha de Abrão, pois poderia ter assumido a questão com coragem e fé. Se fosse o contrário, duvido que Sarai se submeteria a um disparate parecido. Normalmente, as mulheres não acolhem sugestões estranhas de seus maridos para resolver com “jeitinho” aquilo que não está de acordo com as expectativas e desejos. Não sem muita luta, pelo menos, e enorme contrariedade.

No segundo nível, o do conflito, Abrão omitiu-se do desafio de participar ativamente do processo de estranhamento que se instalou na relação entre Sarai e Hagar. Certamente as mulheres concorreriam pelo direito de esposa, visto que, desde então, uma era a “oficial” e a outra, a mãe. Houve uma inversão dos papéis, decorrente daquela inversão que fez com que Sarai tomasse decisões em lugar de Abrão. Era visível, sensível, perceptível. Mas Abrão fingia que não era com ele. Sarai acusou-o de tal omissão (nova cobrança) e exigiu que tomasse uma atitude. Será que, agora, Abrão se apresentaria?

Não foi o que aconteceu. Abrão omitiu-se no terceiro nível, da intervenção, e mandou que Sarai resolvesse o problema como achasse melhor. Há um momento em que o homem não pode mais continuar fingindo que os problemas das pessoas que o cercam não são seus. Como homem, criado por Deus para desempenhar-se e conquistar, deve ocupar os espaços conflituosos e caóticos transformando-os pela intervenção da fé e do compromisso com a vontade de Deus. Isso se chama autoridade espiritual. Mas Abrão não interveio e não exerceu sua autoridade; sucumbiu aos bloqueios oriundos da falta de reconhecimento, por ele mesmo e pelas mulheres, dessa autoridade. Não apaziguou os ânimos nem trouxe solução para o problema. Assim, piorou as coisas. E o fim da história todos conhecemos bem.

Ser homem é assumir com coragem o protagonismo na vida, independentemente dos resultados ou reconhecimento alheio. O desempenho masculino não objetiva resultados, mas fidelidade à missão do homem no mundo. Suas conquistas não almejam reconhecimento alheio, mas o exercício pleno do potencial dado por Deus. Um exemplo biológico que ilustra bem o desafio psicoespiritual da hombridade é a corrida dos espermatozoides rumo ao óvulo; não correm porque todos irão entrar, mas porque precisam, simplesmente, correr e, talvez, chegar. Finalmente, um entrará, e a vida seguirá seu curso.

Não foi dado ao homem o direito de esquivar-se de sua responsabilidade. Ele não pode omitir-se. No nível das decisões, deve assumir seu papel e zelar para que as escolhas, suas ou dos que o cercam, sejam feitas levando-se em consideração a vontade de Deus. No nível dos conflitos, devem comportar-se como interessados amorosos e agentes pacificadores, para favorecer os relacionamentos e honrar a Deus com uma postura abençoadora. No nível da intervenção, devem confrontar as ações injustas ou perversas, promovendo o Reino de Deus com seus valores eternos e fazendo o bem a todos. Como escreveu Jürgen Moltmann, “este é o pecado que mais profundamente ameaça o crente. Não o mal que ele faz, mas o bem que deixa de fazer; acusam-no não as suas más ações, mas as suas omissões”.

Jesus venceu a tentação da omissão e pode nos ajudar a vencê-la. Ele escolheu obedecer a Deus e fazer Sua vontade. Escolheu a cruz e desprezou a vergonha. Escolheu morrer pelos pecados da humanidade, mas também assumiu nossas fraquezas e conflitos, tornando-se mediador entre Deus e os homens, e deixando-nos sua paz! Interveio em nosso favor e nos deu o Seu Espírito. Quebrou as barreiras da inimizade até então existentes entre nós. Ele jamais se omitiu. Encarnação é o contrário de omissão. Jesus é o Salvador de todos e o Senhor absoluto de tudo.

Por isso, Jesus é a referência para o homem que quer ser homem segundo o coração de Deus. Homens de Deus são semelhantes a Jesus. O apóstolo Paulo compreendeu tão fortemente essa verdade que exortou nestes termos: “maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela”. Cristo é o modelo maior para o marido, pois Ele deu a sua vida e não há maior amor que esse. Não há omissão onde a vida está oferecida e empenhada. E não há mulher que assuma temerariamente o controle, pondo pés por mãos e desesperando-se, onde aprendeu que pode contar com um homem moldado conforme o caráter de Jesus. Ela sempre sabe onde encontrá-lo.

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