O FILHO QUE SOBREVIVEU AO PAI

Marcelo Gomes

Isaque foi o filho prometido de ninguém menos que Abraão, o “Pai da Fé”. Poderia haver alguém mais idealizado? Abrão, seu nome original, significa “pai exaltado”.  Abraão, nome que recebeu do próprio Deus, significa “pai de nações”. Ele foi escolhido por Deus para ser a semente de uma descendência numerosa. A história de um povo especial e abençoado pelo Criador do Universo começou em Abraão. Isaque, portanto, é o filho que tem pai muito grande, muito forte, muito poderoso, muito amado, muito importante. Como viver às sombra dele?

Além disso, Isaque veio ao mundo como o filho da Promessa. Não foi apenas o resultado do amor entre um homem e uma mulher, mas o cumprimento de uma palavra divina que descortinou o futuro ante os olhos atônitos de seus pais. Ele era mais que uma criança; era uma dádiva, uma providência, uma causa. Havia expectativas a mais depositadas sobre seus ombros infantis. Veio para realizar sonhos, viabilizar feitos e estabelecer propósitos. Ele é o filho de quem se espera muito, que precisa sempre corresponder. Paul Tounier mencionou homens que vivem deprimidos por sentirem-se como um cavalo de corrida no qual se apostou muito e que deve ganhar a qualquer preço.

Outro fator importante é que Isaque veio ao mundo como o filho da velhice de Abraão, que tinha cem anos de idade quando ele nasceu. Não teve um pai comum, no auge da vida física e ainda aberto para as novidades de sua época, mas um pai idoso, apesar de seu vigor, sobretudo espiritual, que poderia ser seu avô ou mesmo bisavô. Isaque é o filho que vive mais intensamente o conflito de gerações, a distância entre seu mundo e o mundo de seus pais.

Por fim, Isaque veio ao mundo como o filho de um crente. Seu pai era um homem de fé, muita fé, disposto, inclusive, a sacrificar o filho em obediência a Deus. Aliás, este é um episódio que nós comentamos sempre a partir da condição de Abraão, mas pouco a partir da condição de Isaque, o qual foi amarrado por um pai que contra ele levantou o cutelo. Luis Fernando Veríssimo, numa crônica, pensou assim o drama de Isaque:

Muitos anos depois:

– Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

– Você era um menino…

– Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água…

– Você era um menino…

– Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

– Era a voz do anjo, me falando dos céus.

– Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

– Meu filho…

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.

– Você era um menino.

Foi a voz do anjo que impediu Abraão de sacrificar Isaque. E o filho, por milagre e intervenção divina, sobreviveu ao pai. Será que algo dessa experiência lhe foi difícil de superar? Será que o menino se lembrava com frequência da cena toda, cheio de medo e não poucas dúvidas? Será que chegou a questionar o amor do pai? Será possível acreditar no amor de um pai que levanta contra o próprio filho o seu cutelo? Isaque é o filho que se sente ameaçado pelo pai e que, às vezes, tem medo dele.

Com Isaque aprendemos que o segredo da vitória pessoal é a superação dos traumas pela alegria do convite à vida que segue e se realiza, uma vez que sobrevivemos aos percalços e às pessoas que nos cercam, inclusive nossos pais. Afinal, ser homem é ser filho de alguém e, como tal, padecer e superar as exigências e incoerências dessa relação, tornando-se livre de suas imposições psicológicas. Ninguém vem ao mundo sem a intermediação do pai e ninguém tem o pai que deseja o tempo todo. Mas todos podemos celebrar a paternidade de que somos fruto, aproveitando-a como oportunidade de cura, vitória, felicidade e salvação. É o milagre da gratidão pelo pai independentemente do que tenha dito ou feito que nos faz ingressar no caminho da maturidade e do sucesso.

O Evangelho conta do Pai que enviou seu Filho para morrer na cruz. O profeta Isaías escreveu que “a Deus agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”. A filiação divina pesou sobre Jesus, que teve que enfrentar acusações, perseguições, questionamentos, solidão e dor. Contudo, como o mesmo Isaías declarou, ele viu o fruto de seu trabalho e ficou satisfeito. O Filho completou a obra do Pai e pelo poder do Pai ressuscitou dos mortos. O filho nos fez filhos de Deus! Pelo Filho temos vida e liberdade em relação a todos os nossos traumas e marcas, pois se o Filho nos libertar, verdadeiramente seremos livres! E viveremos eternamente!

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